Messi - Resenha crítica - Guillem Balague
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Messi - resenha crítica

Biografias & Memórias, Esportes e translation missing: br.categories_name.modo_copa

Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

ISBN: 9781409146612

Editora: Orion Publishing Group

Resenha crítica

Messi

Imagine a tensão sufocante de ser um garoto de treze anos atravessando o oceano com a esperança de toda uma família nas costas. Todas as noites, sozinho no banheiro, você espeta uma agulha na própria coxa. Do outro lado da mesa, dirigentes de um gigante europeu hesitam em assinar seu primeiro contrato. Se eles disserem não, você volta para um país em colapso onde nenhum clube quer pagar pelas suas injeções.

Esse garoto era Messi. E a história que você vai ouvir agora não é a do gênio iluminado que apareceu pronto no Camp Nou. É a história de um menino magro de Rosário que sobreviveu a uma máquina trituradora chamada futebol profissional, atravessou três décadas de exílio, traições contratuais, finais perdidas e comparações esmagadoras com Diego Armando Maradona, até finalmente beijar a taça dourada no Catar.

Este microbook reconstrói os bastidores táticos, médicos e familiares por trás da maior estrela do futebol mundial. Você vai entender por que ele chorou ao deixar Barcelona, por que recusou bilhões da Arábia Saudita, e o que separa um talento natural de uma obsessão de dez mil horas.

O menino que odiava perder

Em Rosário, no começo dos anos 90, Messi era o menor dos primos no quintal. Mas era ele quem chorava de fúria quando o time perdia. A avó Celia foi quem insistiu para que o treinador do clube local Grandoli o colocasse em campo contra garotos mais velhos. Funcionou. Aos seis anos, ele driblava dezenas de oponentes sem passar a bola uma única vez. Pedir o passe era inútil. Leo nunca passava.

Aos onze, veio o golpe. O Dr. Diego Schwarzstein diagnosticou deficiência de hormônio do crescimento. Todas as noites, injeção alternada nas duas pernas. Leo aprendeu sozinho a aplicar a agulha sem reclamar. O Newell's Old Boys, seu clube de base, prometeu custear o tratamento, mas a crise econômica argentina derrubou o acordo. Uma peneira no River Plate em Buenos Aires terminou da mesma forma: brilho em campo, silêncio na hora de pagar as injeções.

Foi quando Jorge Messi, o pai, decidiu cruzar o Atlântico. Não havia mais opção em casa.

O guardanapo que evitou o naufrágio

Em Barcelona, a família esperou quinze dias por uma decisão. O clube hesitava em contratar um estrangeiro menor de idade com despesas médicas mensais. Foi quando Charly Rexach, dirigente lendário, agarrou o primeiro pedaço de papel à mão — um guardanapo — e rabiscou ali o acordo. Era simbólico, mas amarrou a família. O Barcelona assumiu o tratamento hormonal e deu emprego a Jorge.

A adaptação na Espanha rachou a casa ao meio. A mãe e os irmãos não suportaram o idioma e a cultura catalã, e voltaram para Rosário. Leo ficou com o pai em La Masía, o centro de formação do clube. Tinha treze anos. No segundo jogo oficial, fraturou a fíbula. Aos olhos dos colegas, era o garoto mudo do vestiário que mal levantava a cabeça.

Mas ele decidiu ficar. Voltar para o conforto da mãe era abandonar o sonho.

A fúria silenciosa contra a Geração 87

A turma de 1987 em La Masía era formidável: Cesc Fàbregas, Gerard Piqué e mais um pelotão de futuros campeões mundiais. Leo entrou ali como o argentino tímido que ninguém ouvia falar. O respeito veio pelos pés. Nos treinos, ninguém conseguia tirar a bola dele. No Troféu Maestrelli, na Itália, os colegas esconderam seu videogame numa brincadeira. A reação emotiva de Leo quebrou o gelo. A partir dali, ele virou um deles.

A obstinação assustava. No famoso "jogo da máscara", entrou em campo com o rosto fraturado, arrancou a proteção incômoda no primeiro lance e marcou gols decisivos. O Arsenal levou Fàbregas e tentou levar Messi também. Inter de Milão e Real Madrid acenaram com propostas astronômicas. Jorge recusou todas. O guardanapo tinha selado a palavra da família.

Em meses, Leo saltou do juvenil ao Barça B, ignorando táticas e categorias.

Sob as asas de Ronaldinho

A estreia profissional foi aos dezesseis anos, num amistoso contra o Porto de José Mourinho. Frank Rijkaard, o técnico holandês, blindou o garoto. Mas a proteção real veio da panelinha brasileira do vestiário, liderada por Ronaldinho Gaúcho e Deco. Eles exigiam espaço para o argentino. O primeiro gol oficial veio num toque por cobertura ao goleiro do Albacete, após assistência de Ronaldinho. Na Liga dos Campeões, contra o Chelsea, ele sofreu pancadas duras e comandou o ataque.

Depois veio o gol contra o Getafe, calcado linha por linha no clássico de Maradona contra a Inglaterra. Era um pedido velado pelo trono. Mas o corpo cobrava. Rupturas musculares seguidas tiraram Leo da final da Champions de 2006. Uma dieta de adolescente — pizzas, refrigerantes, milanesas — combinada com crescimento acelerado virou bomba-relógio.

Entrou em cena o fisioterapeuta Juanjo Brau. Reformulou alimentação, sono, treino. Ronaldinho e Deco mergulhavam na boemia. Messi ia para casa cedo.

A desconstrução do milagre e o Falso 9

A imagem do gênio iluminado é mentira. Leo treinava com bola desde os três anos. Mais de dez mil horas de repetição obsessiva antes de pisar em La Masía. O contraste argentino existe: "Trinche" Carlovich, lendário craque de várzea, tinha talento comparável a Maradona, mas a boemia o destruiu. A diferença entre eles e Messi não era o dom. Era o sacrifício diário.

Quando Pep Guardiola assumiu o Barcelona em 2008, fez uma limpeza cirúrgica. Ronaldinho e Deco foram embora. O ecossistema foi montado em torno de uma ideia tática revolucionária: o Falso 9. Guardiola tirou Messi da ala direita e o jogou no centro, atraindo zagueiros para fora da zona. O laboratório foi um 6 a 2 histórico no Santiago Bernabéu contra o Real Madrid. Depois vieram duas finais de Champions massacrando o Manchester United, em 2009 e 2011.

Foi nesse ciclo que começou a coleção em série de Bolas de Ouro.

A sombra de Diego e o reflexo de Cristiano

A Argentina não perdoava. Para a imprensa, Leo "não cantava o hino" com paixão suficiente. Não era patriota como Maradona. Não chorava como Diego. A comparação corroía. E quando Maradona virou treinador da seleção na Copa do Mundo da África do Sul, em 2010, o caos tático culminou em eliminação humilhante para a Alemanha. Messi voltou para Barcelona carregando o peso de um país que endeusava a tragédia.

Em paralelo, no clube, a Guerra Fria com Cristiano Ronaldo virou rotina estatística. Recordes mensais, Bolas de Ouro alternadas, narrativas opostas: o português midiático e expansivo contra o argentino obcecado pelo controle silencioso. Saíram Guardiola e Tito Vilanova. Chegou Tata Martino, com gestão tímida. A contratação de Neymar prometia desonerar Leo, mas mexia com hierarquias dentro do vestiário.

Sangue azul e branco e colapsos no Velho Continente

Alejandro Sabella foi a Barcelona entregar pessoalmente a braçadeira de capitão. Montou um esquema ultraconservador para a Copa do Mundo no Brasil em 2014, blindando a defesa enquanto soltava Messi, Di María, Aguero e Higuaín. Funcionou até a prorrogação da final contra a Alemanha. Leo terminou exausto, recuando demais. A taça escorreu pelos dedos.

Veio o processo por fraude fiscal na Espanha. A sanidade do atleta vacilou. Considerou deixar o Barcelona em 2016. Com Luis Enrique, viveu a euforia do Tridente MSN — Messi, Suárez e Neymar — e um triplete avassalador. Mas três finais seguidas perdidas com a Argentina, contando duas Copas América, o levaram a anunciar a renúncia à seleção.

Voltou após clamor nacional. Foi para a Rússia em 2018 com Sampaoli. Saiu humilhado. No Barcelona, contratações desastrosas de Coutinho e Dembélé esvaziaram o time. Vieram viradas trágicas contra Roma e Liverpool e a humilhação do 8 a 2 contra o Bayern de Munique. Ali, Leo enviou o famoso Burofax pedindo saída gratuita.

Guerra política, blefes e as lágrimas definitivas

Bartomeu mentiu durante a pandemia. Prometeu liberar Leo, depois travou. O Burofax explodiu publicamente. A tentativa de transferência ao Manchester City fracassou. Veio um ano letárgico com Ronald Koeman, marcado pelo escândalo do Barçagate e pela renúncia do presidente.

Joan Laporta voltou com promessas vazias em jantares e asados. Em paralelo, no verão de 2021, a Argentina venceu a Copa América no Brasil. Décadas de seca quebradas. Catarse pura. Dias depois, Laporta avisou Jorge Messi que a renovação estava cancelada. O fair play financeiro da LaLiga não permitia, mesmo com Leo cortando metade do salário.

A coletiva de despedida foi um choro compulsivo diante das câmeras. Em menos de três dias, Leonardo e Neymar costuraram o acordo. Leo voou para o Paris Saint-Germain.

A coroação no deserto e o sonho americano

Paris foi um exílio. Família morando em hotel por meses, lesões pela mudança de método de treino, vaias no Parque dos Príncipes após eliminação para o Real Madrid. Leo mudou o foco. Passou a gerir o corpo exclusivamente para a Copa do Mundo do Catar.

Em campo, encontrou Lionel Scaloni, jovem treinador que construiu um vestiário argentino baseado em reverência mútua, churrascos e cartas. A simbiose era visível. O torneio começou com colapso diante da Arábia Saudita. Foi resgatado pela genialidade de Leo contra México, Austrália e Holanda — o "que mirás, bobo?" virou meme global. A final contra a França de Mbappé entrou para a história. Pênalti convertido, taça beijada, debate encerrado.

A saída do PSG foi por desgaste tático e castigos por viagens à Arábia Saudita. Laporta e Xavi sonhavam com a volta ao Camp Nou, mas o fair play financeiro travou tudo. A proposta saudita era bilionária. Leo recusou.

A escolha foi o Inter Miami. O acordo criativo incluía repasses da Apple pela transmissão da MLS, porcentagem sobre vendas da Adidas, e a vitrine americana antes da Copa de 2026. Mais do que dinheiro, comprava paz familiar. Amigos próximos migraram juntos para a Flórida. A reta final seria lúdica.

O preço da glória

A excelência cobra pedágio mental, físico e familiar gigantesco. Messi não nasceu pronto: foi forjado por injeções, exílios, traições contratuais e três finais perdidas antes da redenção. Ao beijar a taça no Catar, ele não venceu apenas a França. Venceu a máquina trituradora do próprio esporte.

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